Li um texto da Coordenação Anarquista Brasileira que fala de um “movimento sindical de intenção revolucionária (hegemônico em diferentes países no início do século XX)”. Neste texto, o movimento sindical está associado a Neno Vasco e Errico Malatesta. Na medida em que este movimento foi referido como “hegemónico em diferentes países » no início do século XX, entende-se naturalmente que se trata do sindicalismo revolucionário. Então porque não dizer simplesmente “sindicalismo revolucionário » ?

Falar de “sindicalismo de intençõe revolucionária » permite, sem dúvida, associar Malatesta e Neno Vasco ao mesmo movimento, enquanto Malatesta tinha claramente tomado uma posição contra o sindicalismo revolucionário. Malatesta ainda está amalgamado com um sindicalismo cujos atributos são vagos, de “intenção » revolucionária, que sem dúvida permite manter a ilusão de que ele tinha uma visão revolucionária do sindicalismo ; mas não é o caso.

Ele ficou certamente entusiasmado durante algum tempo com o sindicalismo revolucionário. Chegou mesmo a Paris durante a greve geral de 1° de Maio de 1906 organizada pela CGT para reclamar o dia de 8 horas. Ele saiu muito desapontado porque a greve tinha falhado. Malatesta pensou que uma reivindicação como esta poderia ter sido obtida em uma única mostra da força. Para ele, foi um reconhecimento do fracasso do sindicalismo revolucionário. Mas é preciso muito pouco conhecimento da classe trabalhadora para imaginar que uma reivindicação de tal magnitude pode ser satisfeita de uma só vez.

Na verdade, esta greve não foi um fracasso, longe disso. Ela foi preparada por dois anos, e durante esses dois anos a burguesia viveu com medo, acumulando provisões em antecipação a uma revolução. Uma vez concluída, a greve geral pôs em marcha um movimento geral de negociações nas empresas em toda a França, conduzindo a reduções significativas nos horários de trabalho e aumentos salariais.

Não é possível associar o nome de Malatesta ao sindicalismo revolucionário, porque ele se opôs a ele – estou mesmo tentado a dizer que não compreendeu os seus fundamentos. Ao inventar uma formulação ambígua como “sindicalismo de intençõe revolucionária », permitimos que o Malatesta seja associado a uma vaga ideia de sindicalismo. Na verdade, ele defendeu a actividade sindical no sentido mais reformista do termo :

« Nas mentes de alguns de nossos companheiros, o sindicalismo está se tornando uma nova doutrina e ameaçando o anarquismo em sua própria existência. No entanto, mesmo que esteja associado ao epíteto desnecessário de revolucionário, o sindicalismo é, e nunca será, nada mais do que um movimento legal e conservador, sem outro objectivo acessível – e ainda assim ! – do que a melhoria das condições de trabalho.” (2)

Penso que isso é suficiente para desqualificar Malatesta como um “sindicalista revolucionário”.

Mas há mais.

Associar Neno Vasco e Malatesta na mesma visão do sindicalismo é absolutamente impossível. Entre todos os traços característicos do sindicalismo revolucionário está a ideia de que o sindicato operário é o grupo essencial, o órgão específico da luta de classes e o núcleo reorganizador da sociedade futura. Esta ideia remonta à Primeira Internacional, encontra-se em Bakunin e nos militantes que lhe eram próximos, constitui a própria base do sindicalismo revolucionário, encontra-se na carta dos Amiens da CGT. Mas é uma ideia à qual Malatesta se opôs categoricamente – o que mostra o quanto ele se afastou do bakuninismo.

É neste sentido que eu penso que se Malatesta pode ser incluído no conceito de “sindicalismo de intenção revolucionária”, então estamos diante de um conceito indeterminado que pode significar tudo e seu oposto…

Outra passagem do texto da Coordenação Anarquista Brasileira chamou minha atenção. Este texto “reivindica a tradição do Sindicalismo Revolucionário”. No entanto, o Caderno de Formação Sindical afirma que “Na atual conjuntura, seria mais próximo do que tem sido chamado também por sindicato de resistência” (p. 12)

Compreendo que os companheiros sintam necessidade de fazer esta clarificação, mas parece-me inútil. Na verdade, o próprio fundamento do sindicalismo revolucionário está na afirmação de que o movimento é simultaneamente defensivo e ofensivo : hoje os trabalhadores lutam para melhorar as suas condições de vida (ou seja, resistem à deterioração das suas condições de vida) e amanhã vão reorganizar a sociedade emancipada. Esta é a ideia fundamental encontrada na Carta de Amiens da CGT, adotada em 1906 :

“El Congreso precisa, en los puntos siguientes, esta afirmación teórica :

“En su labor reivindicativa cotidiana, el sindicalismo trata de coordinar los esfuerzos obreros, aumentar el bienestar de los trabajadores con mejoras inmediatas, como son la disminución de los horarios de trabajo, el alza de salarios, etc.

“Pero esta no es más que una de las tareas del sindicalismo ; éste prepara la emancipación integral, que sólo se podrá llevar a cabo mediante la expropiación capitalista ; defiende como medio de acción la huelga general y considera que el sindicato, hoy agrupación para la resistencia, será en el futuro una agrupación para la producción y el reparto, la base de la reorganización social.”(4)

A passagem sublinhada é, de certo modo, o coração da doutrina sindicalista revolucionária, mas deve-se notar que Malatesta se opôs categoricamente a esta ideia..

Tenho a impressão de que os companheiros da CAB estão relutantes em falar de “sindicalismo revolucionário” porque a expressão “revolucionário” lhes parece desproporcional considerando os meios de ação à sua disposição no atual equilíbrio de poder. Isto é o que eu entendo quando leio que “o termo ’revolucionário’ hoje pode soar estranho, por parecer prepotente demais diante de uma atuação que nos conduz a certas limitações no campo prático.” (p. 12.)

Referindo-se ao “sindicalismo de intenção revolucionária”, parecem ter a impressão de serem mais realistas. Mas ao fazê-lo, negligenciam um facto essencial, nomeadamente que o sindicalismo revolucionário tem uma função reivindicativa/defensiva, mas também uma função ofensiva/construtiva, e que se um dos dois aspectos domina num dado momento, é apenas circunstancial.

É óbvio que no momento no Brasil, e em qualquer outro lugar, é o aspecto defensivo que domina, mas justamente por isso, é importante insistir no aspecto construtivo, pois é esse aspecto construtivo que proporciona um projeto, um ideal para o futuro que pode interessar o povo. Kropotkin disse que a raiva causa motins, só a esperança leva à revolução.

É vital não diluir, não atenuar o conceito de sindicalismo revolucionário, dando-lhe o qualificador de “intenção” que soa um pouco como um vago desejo.

Um último ponto : o sindicalismo revolucionário pertence à história do movimento operário brasileiro, tem sido uma tendência histórica do movimento operário brasileiro da qual os ativistas de hoje devem se orgulhar. Rejeitar este termo a favor de outro que exprime apenas uma diluição da doutrina é, na minha opinião, insultar os revolucionários que, há cem anos, lutaram e por vezes morreram sob a sua bandeira.

René Berthier

18/10/2018


1. Caderno de formação sindical // n° 01, Coordenação Anarquista Brasileira – CAB)

https://anarquismo.noblogs.org/files/2017/09/Caderno-de-Formação-Sindical-da-CAB-FINAL.pdf

2. Malatesta, Discurso no Congresso Internacional Anarquista em Amesterdão. A citação é a do livro de Maurizio Antonioli e Ariane Miéville, Anarchisme & syndicalisme : le Congrès anarchiste international d’Amsterdam (1907) (Anarquismo e Sindicalismo : o Congresso Internacional Anarquista em Amsterdã) Rennes : Nautilus ; Paris : Ed. du Monde Libertaire 1997. Il y a des variantes à cette citation selon les éditions. Há variações desta citação de acordo com as edições.

3. Neno Vasco, Concepção Anarquista do Sindicalismo.

4. https://elsalariado.info/2016/06/21/la-carta-de-amiens-1906/


Article publié le 07 Mai 2019 sur Monde-nouveau.net